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Essa é uma homenagem ao homem de bem, que faleceu essa semana, e que no dia do seu enterro todos comentavam: "esse foi um dos homens mais bondosos que morou em nossa cidade"
Nossa homenagem a Durval do Açúcar, como era conhecido por todos, é um texto produzido pelo Professor Samarone, filho de nossa terra e morador do Beco Novo, leiam:
Os pobres passavam bem durante a semana santa em Itabaiana. Não precisava de divulgação. Na quarta-feira maior, antes das sete da manhã, a porta de Seu Durval ficava lotada de necessitados. Até gente remediada aproveitava a boquinha. Além do peixe, que era sagrado, também eram distribuídos o arroz, o coco, a cebolinha e o coentro. Não se fazia nenhuma exigência. A lógica de Seu Durval era cristalina:
_ "quem se submete à humilhação de pedir uma esmola é porque, de uma forma ou de outra, está precisando".
Ainda não existia a filantropia interessada dos políticos, nem as políticas compensatórias do neoliberalismo. A ajuda aos pobres era obra da caridade, por sinal uma virtude cristã. Vivíamos sob o guarda-chuva da igreja, com o seu tradicional "pão dos pobres" no dia de Santo Antonio. Naquela sociedade, Seu Durval era um benemérito.
Adroaldo de Deus Souza, era um homem de poucas letras, mesmo sendo filho de um professor primário. O pai, senhor Antonio de Deus, fora nomeado professor, no tempo de Vargas, porque era o único cidadão da redondeza que sabia assinar o nome. Adroaldo, ou Durval, Nasceu no povoado Zanguê, e se criou no mundo. O apelido vem de muito cedo, deve-se, segundo alguns, a tradição da terra em por apelidos, mas, segundo outros, deve-se mesmo ao fato do pai ter-lhe batizado com um nome estranho, de difícil pronúncia.
Na verdade, Seu Durval, nunca se intimidou com nada. Começou a trabalhar desde cedo. Foi carregador de feira, mata-cachorro de circo, ajudante, depois motorista e dono de caminhão. O sonho de Seu Durval era ser senhor de engenho, andou até apreçando a usina Pinheiro, mas estava longe. De tanto perguntar e freqüentar a usina terminou amigo do dono e, segundo os bajuladores, se tornou até compadre do homem. A verdade, é que Seu Durval virou o intermediário do doce negócio do açúcar, para toda a área de influência comercial de Itabaiana. Isto é, todo o agreste e o sertão de Sergipe e uma boa parte do sertão da Bahia. O que não é pouca coisa. Nascia o Seu Durval do açúcar.
Esse monopólio trouxe-lhe uma rápida riqueza. Não se sabia ao certo mensurá-la, mas a pose, a ostentação, as demonstrações públicas de generosidade, os vários caminhões novos, que ele fazia questão de enfileirá-los na frente da igreja para o padre Artur benzer, a grandiosidade das trezenas de Santo Antonio que ele patrocinava, eram sinais inequívocos de seu imenso cabedal.
Achavam até que Seu Durval tinha algum parentesco com Diogo Álvares, o Caramuru. O povo lhe conhecia por Durval, de Antonio, de Chico, de Dona, de Joaninha. E tal Joaninha, era uma índia Tupinabá, que fora amante de Belchior Dias Moréia, neto de Caramuru, e que andou muito por Itabaiana a procura de prata e do bezerro de ouro, existentes na Serra. Verdade ou lenda, o fato é que Seu Durval tinha uma exagerada mania de grandeza.
Seu Durval era um homem baixo, troncudo, conversador, metido invariavelmente numa roupa de linho exageradamente engomada e num chapéu de aba curta, da marca ramezzoni três X, Gostava de mascar um charuto de boa qualidade, dos de caixa, que ele mandava trazer de São Paulo. Charuto que não tinha nada a ver com os mata-ratos fabricados por aqui. Depois de rico andava sempre de automóvel do ano e com chaufert particular.
Na fase de ouro de sua vida o motorista de Seu Durval mais famoso foi Zé Neguinho. Era um crioulo mofino, mas tirado a valente, que além de motorista, fazia o papel de segurança. Era a gabolice e a parrança em pessoa. Dizia-se corrido da polícia de Alagoas, protegido de Pititó, e com mais de dez crimes de mortes nas costas. Em qualquer discussão ele dizia logo que ia dar uma surra no opositor, mas na hora do vamos ver, Zé Neguinho sempre tinha uma desculpa. O povo, por gozação, começou a chamá-lo de Lúcio Fé, quando certamente desejavam apelidá-lo de Lúcifer.
Seja qual fosse o acontecimento em Itabaiana a presença de Seu Durval era destacada. Se aos domingos ele resolvesse ir ao futebol no velho estádio Eltelvino Mendonça, a molecada se assanhava. Não importava quantos vadios estivessem nos arredores do campo, ele mandava fazer fila e pagava a entrada de todos. Seu Durval no futebol a renda era duplicada. O mesmo acontecia nos cinemas, circos, vaquejadas, etc. Baile de formatura, ou beneficente para qualquer coisa, podia procurar Seu Durval para padrinho.
No final da década de 1960 o capitalismo começa a entrar com mais força em Itabaiana. Fica difícil manter o monopólio na distribuição do açúcar, e as relações comerciais vão cada vez mais dependendo da astúcia e do contrabando. Um homem de tendências ao afidalgamento, preso a palavra dada e aos compromissos de honra, dificilmente sobreviveria. Inaugurou-se em Itabaiana uma filial do Banco da Bahia, gerente novo, cheio de demagogia, procura logo Seu Durval e derramou-se em elogios. O homem caiu na graça do velho comerciante. A confiança foi total. Seu Dadá mandava os sacos de dinheiro para depósito, sem contar. O total quem dizia era o gerente. O final dessa relação era previsível: os negócios de Seu Durval começaram a andar para traz e o patrimônio do gerente a aumentar.
Certo dia uma fofoca absurda circulava de boca em boca: Seu Durval estava quebrado. Cada uma dava uma explicação. O homem estava na miséria. Exageros a parte, a verdade é que mulher encontrou logo um motivo para a separação, e os filhos, criados como príncipes, foram cuidar de suas vidas. Seu Durval ficou só. Sem dinheiro, com poucos amigos, mas com a mesma pose de rico, o mesmo ar de Duque do Zanguê. Outro dia, um gozador, atiçou-lhe a imensa vaidade:
- Seu Durval, o senhor já fez tanto favor ao povo, por que não se mete na política?
Aquilo era uma provocação. Um homem como Seu Durval era incapaz de pedir um favor a alguém, quanto mais um voto. Mas o Satanás sempre atenta, e Seu Durval, um sonhador, resolveu no final da vida e da decadência sair candidato a Vereador. Sem dinheiro para comprar os votos, esperando apenas o reconhecimento dos seus contemporâneos. O resultado foi o previsto: uma derrota humilhante.
Encontrou com Zé de Cabocla, velha raposa de política local, que lhe advertiu:
- Eu devia ter lhe alertado Durval, a política é coisa para rico besta ou pobre sabido, e hoje em dia você não é nenhum, nem outro. O que determina o voto é o interesse. A disputa pelo poder é feita por pequenos grupos. O povo é uma ficção. Infelizmente, você não faz parte desse mundo.
Na verdade, Seu Durval não estava interessado nessa filosofia de mesa de bar. No fundo, ele achava mesmo é que tinha havido uma grande fraude, e que seus votos tinham sido roubados pela urna eletrônica. Mas resolveu retrucar:
- Olha Zé! Você pode dizer o que quiser, mas eu continuo acreditando que existe gente boa em tudo que é lugar, até mesmo na política.
- A questão, retrucou Zé de Cabocla, não é se tem ou não gente bem intencionada, é que o negócio da política, Durval, tem regras próprias, é um jogo para iniciados.
Soube a pouco da morte de Seu Durval, um pouco esquecido, quase no anonimato. Esse homem foi o Barão de minha infância, um grande bemfeitor, amigo dos pobres. Descance em paz, grande homem..
Texto do Professor Samarone publicado em seu perfil no Facebook.