A importância de comemorar a data da autora naturalizada brasileira e um pouco de suas contribuições para a sociedade.

Por: Cláudia Santana

*Matéria publicada originalmente dia 10 de dezembro de 2020

Muitas pessoas já escutaram, leram, ou até mesmo colocaram na legenda de alguma foto para as redes sociais alguma frase que no final leva o nome de Clarice Lispector. Muitas realmente de autoria dela, outras equivocadamente atribuídas. Fato é que seu nome e suas obras ganharam o mundo. Uma das principais escritoras brasileiras, nascida no dia 10 de dezembro de 1920, na Ucrânia, naturalizou-se brasileira em papéis, alma e, sobretudo, palavras. O dia de hoje, 10, marca o aniversário dessa escritora e jornalista que se hoje estivesse viva completaria 100 anos.

“Ler Clarice Lispector é uma experiência”

Aos 36 anos de idade, o professor e pesquisador da Universidade Federal de Sergipe (UFS), Fernando de Mendonça, já dedica cerca de 13 anos voltados a pesquisas sobre Clarice Lispector. “Estudar Clarice é continuar me surpreendendo comigo mesmo, e ver que nós somos seres mutáveis, somos seres que evoluímos que precisamos da diferença, precisamos do novo constantemente. E a literatura de Clarice Lispector traz isso.”, afirma.

Foto: Wikimedia Commons/Reprodução


Mas, quem foi Clarice? Fernando diz que podemos responder essa pergunta de forma breve dizendo que ela foi um ser humano iluminado. “Um ser humano que sentiu as dores e alegrias do que é “ser humano” e conseguiu passar isso em imagens e palavras que se eternizaram. E não por acaso estamos comemorando seu centenário”, declara.

O pesquisador explica que não é qualquer autor que justifica a comemoração de um centenário de nascimento. Clarice por sua vez, entre outros grandes autores, justifica isso pela riqueza do que produziu na literatura, no nosso idioma e também na sociedade como um todo. Mesmo não tendo nascido brasileira ela adotou nosso país e nossa língua. “Eu penso que o coração de Clarice seria estrangeiro independente do país em que ela crescesse. Ela nasce com um coração fora de onde ela está. Ela não é alguém que conseguia se deixar prender por uma fronteira.”, acrescenta ele.

O primeiro contato com a obra de Clarice Lispector nem sempre é prazeroso. Esse foi o caso de Eliliane Ferreira, 26 anos, Mestranda em Estudos Literários na área de Letras pela UFS e cordelista nas horas vagas. Seu primeiro contato foi no ensino médio através de um professor de literatura que lhe passou uma imagem equivocada da autora. O segundo foi já na faculdade e novamente ela não viu muita importância, mas, na terceira vez que ela ‘esbarrou’ com Lispector a experiência foi totalmente diferente. “Ao concluir o curso de Letras logo tentei a seleção para o mestrado, foi lendo contos aleatórios que me deparei com o conto “O corpo”, esse conto me tocou de forma surpreendente. Logo descobri que ele fazia parte de uma coletânea de contos, intitulada “A via crucis do corpo”, e advinha quem era a autora, isso mesmo, Clarice Lispector. Li todos os outros contos e já tive a certeza de que era aquela obra que eu gostaria de trabalhar.”, conta ela animadamente.

“Ler Clarice Lispector é uma experiência que você necessita ir vive-la com a alma em branco, não buscando compreender, mas sim sentir o que está sendo dito. Muitas vezes são necessárias segunda, terceira, quarta ou diversas leituras, e ainda assim a obra lhe tocará de formas diferentes. Hoje a minha favorita é “A via crucis do corpo”, o meu objeto de pesquisa.”, revela a mestranda. Que passou a transformar sentimentos em palavras e ter coragem de compartilha-los inspirada em Clarice e por seu viver literário.

Mulher, jornalista, escritora, preocupada com questões sociais e agora centenária 

A autora que faleceu no dia 9 dezembro de 1977, publicou seu primeiro livro aos 23 anos já sendo reconhecida como uma nova voz. Segundo o Fernando, é um trabalho que vai além dos anseios da literatura do movimento modernista do Brasil. Clarice emancipa a literatura brasileira para além do que era discutido nos anos 1940. Ela estava à frente dos anseios da literatura brasileira da época. E, por isso, é um nome que vem crescendo mundialmente, em traduções de sua obra para outros idiomas.

Como jornalista Lispector conseguiu ir além da informação e a efemeridade das notícias. Dissolveu fronteiras do texto jornalístico, junto a outros cronistas e contistas. “Escrever em um jornal não apenas para entreter ou informar, mas também para despertar algumas inquietações no leitor”, ressalta o professor.

“Clarice traz impactos e contribuições na sociedade como mulher, como escritora, como alguém que estava preocupada com questões sociais”, continua o estudioso lispectoriano. De forma geral, mesmo sem abraçar nenhuma bandeira ideológica ou política.  Podemos perceber em sua escrita, segundo ele, ideias muito fortes, ideias de confronto com a ordem vigente. Questões sociais e politicas se fazem presente em crônicas e em alguns gestos, como o de aderir a uma passeata contra a ditadura militar.

Para quem desejar conhecer Clarice Lispector além do ouvir falar, o professor da UFS sugere algumas opções. “Felicidade Clandestina”, um livro de contos, para quem ficou curioso e nunca leu nada dela.  O livro mais lembrado da autora “A paixão segundo G.H”, uma leitura intermediária, para quem desejar se aventurar por um romance. E por fim, mas um livro que ele considera a obra prima dela, “Água viva”. Leitura que não pode ser definido por um gênero, apenas ficção.